quarta-feira, 10 de novembro de 2010

José Barbosa Júnior e o Preconceito/idiota sobre os nordestinos

As eleições de 2010 trouxeram à tona, entre muitas outras coisas, o que há de pior no Brasil em relação aos preconceitos. Sejam eles religiosos, partidários, regionais, foram lançados à luz de maneira violenta, sádica e contraditória.

Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.
Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”.
Infelizmente, Mayara não foi a única. Vários outros “brasileiros” também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos “amigos” Houaiss e Aurélio) do nosso país.
E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão! 

Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!
Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?
Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?
Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?
Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!

E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.

Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.

Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…
Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…
E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…
Ah! Nordestinos…
Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura. E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros à força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país. Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?
Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.
Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!
Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!
Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário… coisa da melhor qualidade!

Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso… mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!

Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!
Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.
Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.
Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”
Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos! 

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Erich Fromm "O Pai e a Reprodução da Ordem Social"

"O poder externo da sociedade confronta-se com a criança crescida numa família através dos pais e (...) especialmente através do pai. O pai é, em relação ao filho o primeiro veiculador da autoridade social, não sendo, em relação ao conteúdo, seu modelo, mas sim sua cópia."

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Euclides da Cunha relata a Guerra de Canudos (1896-1897)

"Pregava contra a República; é certo.
O antagonismo era inevitável. Era um derivativo à exacerbação  mística; uma variante forçada ao delírio religioso.
Mas não traduzia o mais pálido intuito político: o jagunço é tão inapto para apreender a forma republicana como a monárquico-constitucional.
Ambas lhe são abstrações inacessíveis. É espontaneamente adversário de ambas. Está na fase evolutiva em que só é conceptível o império de um  chefe sacerdotal ou guerreiro.
Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinadamente, ressurreta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um  doido."
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1946.


terça-feira, 14 de setembro de 2010

"Ode ao Burguês" - poema modernista de Mário de Andrade

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos;
E gemem sangues de alguns mil-réis fracos
Para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
E tocam os Printemps com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
«–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar... – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!»

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
Sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burgês!...


MÁRIO DE ANDRADE. Poema extraído de "Paulicéia Desvairada"  (1922).

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lenin e o Capitalismo de Estado Soviético como propulsor do Socialismo

"Ontem a tarefa principal do  momento era nacionalizar, confiscar, abater e aniquilar a burguesia e terminar com a sabotagem; tudo com a  maior decisão possível. Hoje, só os cegos não vêem que nacionalizamos, confiscamos, abatemos e ferimos mais do que tivemos tempo de calcular. A diferença entre a socialização e o simples confisco está em que  é possível confiscar só com decisão, sem a capacidade de calcular e distribuir corretamente, enquanto que sem esta capacidade não se pode socializar (...) comparado com o atual estado de coisas em nossa República Soviética, o capitalismo de Estado seria um passo adiante. Se dentro de seis meses aproximadamente se implantasse o capitalismo de Estado em nossa República, seria  um êxito enorme e a mais segura garantia de que dentro de um ano o  socialismo se consolidaria definitivamente em nosso país  e se tornaria invencível (...)
O socialismo é inconcebível sem a grande técnica capitalista, baseada nos últimos descobrimentos da ciência moderna. É inconcebível sem uma organização estatal planificada, que submeta dezenas de milhões de pessoas ao  mais estrito cumprimento de uma norma única na  produção e na distribuição dos produtos. (...)
O socialismo é inconcebível, além disto, sem a dominação do proletariado no Estado (...) E a história  foi tomando um sentido tão peculiar, que em 1918 deu à luz a duas metades desconexas de socialismo que existiam ao lado de uma outra como dois futuros franguinhos na casca única do imperialismo internacional.  Em 1918, a Alemanha e a Rússia são a encarnação evidente da realização material das condições econômicas, produtivas e sócio-econômicas do socialismo, por um  lado, e das condições políticas, por outro."  
LENIN. Infantilismo de Esquerda e a Mentalidade Pequeno-Burguesa. In: Estado, Ditadura do Proletariado e Poder Soviético. org. Antônio Roberto Bertelli. ed. Oficina de Livros, p. 16-18.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Leonardo Boff e a discriminação católica contra as mulheres

Um dos pontos que mais salta aos olhos como contrário ao sentido do direito é a vigência da discriminação da mulher no seio da Igreja. As mulheres  compõem metade do número dos fiéis, e o número de religiosas é dez vezes superior ao dos religiosos. Apesar disto, são, juridicamente, consideradas incapazes para quase todas as funções de direção na Igreja, com escassíssima presença nos secretariados romanos, nas comissões e sagradas congregações. Em razão de uma tradição cultural assumida também na expressão histórica da palavra de deus, elas são excluídas do acesso aos cargos  ministeriais ligados ao sacramento da ordem. (...)
O argumento básico aduzido pela declaração da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé parece não ser nem o fato da tradição contrária à ordenação sacerdotal das mulheres,  nem a atitude de Cristo, nem a prática dos apóstolos, mas simplesmente de ordem biológica: o  fato de Cristo ter sido  um varão.


BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. ed. Record, p. 88. 

sábado, 17 de julho de 2010

Foucault - Castigos e Clausura (uma Sociologia do Corpo)

"Desapareceu o corpo como alvo principal da repressão  penal (...)  A punição pouco a  pouco deixou de ser  uma cena. E tudo o  que pudesse implicar de espetáculo desde então terá um cunho negativo (...) ficou a suspeita de que tal rito que dava um fecho  ao crime mantinha com ele afinidades espúrias: igualando-o, ou mesmo ultrapassando-o  em selvageria (...) A punição vai-se  tornando, pois, a parte mais velada do processo penal (...) a certeza de  ser punido é que deve desviar  o homem do  crime e não mais o abominável teatro (...) o escândalo e a luz serão partilhados de outra forma; é a própria condenação que  marcará o delinquente com sinal negativo e unívoco: publicidade,  portanto, dos debates e da sentença (...) se realiza a negação teórica: o essencial da  pena que nós, juízes, infligimos não creiais que  consista em punir;  o essencial  é procurar corrigir, reeducar, curar (...) O desaparecimento  dos suplícios é pois o espetáculo que se  elimina; mas é  também o domínio sobre o corpo que se extingue (...) O  corpo encontra-se aí em posição de instrumento ou de intermediário; qualquer intervenção sobre ele pelo enclausuramento, pelo trabalho obrigatório visa privar o indivíduo de sua liberdade considerada ao  mesmo tempo um  direito e como um bem. Segundo essa penalidade, o corpo é  colocado num sistema de  coação e de  privação, de obrigações e de interdições. O sofrimento físico, a dor do  corpo não são mais os  elementos constitutivos da pena. O  castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos  direitos suspensos."


FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. ed. Vozes, p. 12-14.