terça-feira, 20 de março de 2012

"Idi Amin no Pan-Óptico" Eulália Jordà-Poblet

Toda a vida do gorila negro nomeado burlescamente de "Idi Amin" transcorreu como um espetáculo para a população da cidade de Belo Horizonte. Paradoxalmente, ele nunca conheceu seus edifícios por ser cativo de um decadente presídio chamado zoológico.

Nessa peça, quase todos desfilam como figurantes, divertindo-se, mesmo que por ingenuidade, com a desgraça do grande símio condenado a cumprir o papel de bufão. Com sua morte, a tragicomédia interrompeu-se, deixando uma pergunta vir à tona: de onde teria vindo esse estrangeiro? 

Sua documentação apresentou-se incompleta, como reportado em jornal local. Algo comum entre as vítimas de tráfico. Supõe-se que tenha nascido por volta de 1973 em algum lugar da floresta equatorial do Congo - lugar onde a proteção dos animais nunca foi prioridade -, de onde teria sido levado para um zoológico francês. De lá teria sido negociado como um escravo e trazido para Belo Horizonte.


Chegou a essa sua derradeira prisão, da qual nunca mais iria sair, com dois anos de idade. Cumpriu pena maior do que a máxima para os animais humanos que cometeram crimes gravíssimos: 39 anos.

Pela lei das probabilidades, sua mãe deve ter sido morta por caçadores, ocasião em que deve ter se agarrado ao corpo inerte, tornando-se presa fácil para os traficantes oficiais e não oficiais. 

Essa história nebulosa é cuidadosamente omitida, criando-se o álibi de que o zoológico é um lugar importante para a "preservação das espécies".        

Não só "Idi Amin" foi um dos sofridos bebês gorila afastados precocemente de suas mães, mas também "Dada" e "Cleópatra", falecidas com pouco tempo de chegadas à sociedade do espetáculo. Pudera! Como ele, tiveram que enfrentar o sequestro e as mudanças de cárcere para cárcere; a ausência do aleitamento materno - que costuma, em condições normais, chegar aos 3 anos de idade -; deficiências imunitárias geradas pelo estresse; a barbárie do transporte; o isolamento da sua sociedade de gorilas e da planície africana; o banzo; e, finalizando, a superexposição em ambiente estranho.

"Idi Amin", milagrosamente, sobreviveu, mas perdeu em cheio para o tédio, simbolizado por seu melancólico pneu sempre a tiracolo. Como os demais gorilas em cativeiro, tornou-se tímido, ensimesmado; apegou-se aos tratadores, numa espécie de síndrome de Estocolmo, aquela na qual a vítima, em uma estratégia de sobrevivência, identifica-se com seu captor.

A lógica dos zoológicos obrigou "Idi Amin" a viver em um pan-óptico, a se mover durante toda a sua vida em uma arena circular, onde, de qualquer ponto escolhido, o visitante inoportuno pudesse visualizá-lo. Colocado no centro de risos, caretas, sons incompreensíveis, diariamente, o gorila foi massacrado até tornar-se uma caricatura de si mesmo. Agora, com a cadeira de bobo da corte vaga, ainda querem trazer outro gorila para perpetuar o círculo vicioso dessa tradição nefasta.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Rosa Luxemburgo e a Igreja Classista

"...os padres fulminam os trabalhadores que estão em greve e os opositores do Governo; e ainda mais, exortam-nos a suportar a pobreza e a opressão com humildade e paciência. 
(...)
o clero, que se torna o porta-voz dos ricos, o defensor da exploração e opressão, põe-se a si próprio em flagrante contradição com a doutrina cristã. Os bispos e os padres não são os propagadores dos ensinamentos cristãos, mas os adoradores do Bezerro de Ouro e do chicote que açoita os pobres e indefesos. 
(...)
todos sabem que os próprios padres tiram proveito do trabalhador, extraem-lhe dinheiro por ocasião do batismo, casamento e funeral.
(...)
A maior parte dos padres, de faces rosadas, curvam-se e saúdam cortesmente os ricos e poderosos, perdoando-lhes silenciosamente toda depravação e toda a iniquidade.
(...)
Os trabalhadores espantam-se de como na luta da sua classe pela emancipação vão encontrar nos servidores da Igreja inimigos e não aliados."
LUXEMBURGO, Rosa. O Socialismo e a Igreja.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Rosa Luxemburgo e o sentido burguês de toda burocracia

"Sem eleições gerais, sem liberdade ilimitada de imprensa e de reunião, sem livre enfrentamento de opiniões, a vida se estiola em qualquer instituição pública, torna-se uma vida aparente na qual a burocracia subsiste como único elemento ativo.
A vida pública adormece progressivamente, algumas dúzias de chefes, portadores de uma inesgotável energia e de um idealismo sem limites, dirigem e governam; entre eles, a direção é assegurada, na realidade, por uma dúzia de espíritos superiores, e a elite do operariado é convocada de tempos em tempos para reuniões, para aplaudir o discurso do chefe e votar unanimemente as resoluções propostas (...) Trata-se de uma ditadura, é verdade, não a ditadura do proletariado, mas a ditadura de um punhado de políticos, isto é, uma ditadura no sentido puramente burguês."
LUXEMBURGO, Rosa. A Revolução Russa.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

José de Alencar defendia a escravidão

"Se a escravidão não fosse inventada, a marcha da humanidade seria impossível, a menos que a necessidade não suprisse esse vínculo por outro igualmente poderoso. (...)
Desde as origens do mundo, o país centro de uma esplêndida civilização é, no seu apogeu, um mercado, na sua decadência, um produtor de escravos. (...)
Modernamente, os povos caminham pela indústria. São os transbordamentos das grandes nações civilizadas que se escoam para as regiões incultas, imersas na primitiva ignorância. O escravo deve ser, então, o homem selvagem que se instrui pelo trabalho. Eu o considero nesse período como o neófito da civilização."

ALENCAR, José de. Cartas a favor da escravidão. ed. Hedra, 2008, p. 67.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Francisco Iglésias comenta o Integralismo de Plínio Salgado

"Plínio Salgado (...) não era o chefe imaginado pela direita do país: arrogante nos momentos de êxito, era simples seguidor de ordens oficiais em momentos adversos. Assim terminou sua carreira, como deputado convencional. Não sem deixar marca profunda de seu pensamento, pouco original, mas eficaz na propaganda, empolgando largos setores da população por alguns anos, para depois consumir-se como político comum na Câmara dos Deputados. A Ação Integralista é episódio digno de nota na trajetória política de um povo que não conta com instantes excepcionais, em geral acomodado à ordem vigente. Exprimiu aqui a ascensão da direita no mundo, mas não conseguiu impô-la. Viveu intensamente de 1932 a 1937, para depois desaparecer. "
IGLESIAS, Francisco. Trajetória Política do Brasil 1500-1964. ed. Cia das Letras, p. 241, 1993.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Lenin em defesa do Estado Laico

"A impotência das classes exploradas na luta contra os exploradores gera tão inevitavelmente a fé numa vida melhor de além-túmulo como a impotência dos selvagens na luta contra a natureza gera a fé em deuses, diabos, milagres, etc. Para aquele que toda a vida trabalha e passa necessidades a religião ensina a resignação e a paciência na vida terrena, consolando-o com a esperança da recompensa celeste (...)
O operário consciente moderno, formado pela grande indústria fabril e esclarecido pela vida urbana, afasta de si com desprezo os preconceitos religiosos e deixa o céu à disposição dos sacerdotes e dos carolas burgueses, alcançando uma vida melhor aqui na terra. O proletariado moderno se coloca ao lado do socialismo, que se vale da ciência na luta contra o nevoeiro religioso e liberta os operários da fé na vida de além-túmulo por meio de sua arregimentação para uma verdadeira luta por uma vida terrena melhor.
A religião deve ser declarada um assunto privado - com essas palavras se exprime habitualmente a atitude dos socialistas em relação à religião (...) Exigimos que a religião seja um assunto privado em relação ao Estado (...) O Estado não deve manter conúbio com a religião, e as sociedades religiosas não devem estar ligadas ao poder estatal. Cada pessoa deve ser absolutamente livre para professar qualquer religião que seja ou para não reconhecer nenhuma religião, isto é, para ser ateia, coisa que todo socialista geralmente é. São absolutamente inadmissíveis quaisquer diferenças entre os cidadãos quanto a seus direitos conforme suas crenças religiosas. Deve ser totalmente eliminada até mesmo qualquer referência a uma ou outra religião dos cidadãos em documentos oficiais. (...)
Completa separação entre igreja e Estado - eis a reivindicação que o proletariado socialista apresenta ao Estado e à igreja atuais.(...)
Seria estreiteza burguesa esquecer que o jugo da religião sobre a humanidade é apenas produto e reflexo do jugo econômico que existe dentro da sociedade (...) A unidade dessa luta realmente revolucionária da classe oprimida pela criação do paraíso na terra é mais importante para nós do que a unidade de opiniões dos proletários sobre o paraíso no céu. "
LENIN, Vladimir Ilitch. Socialismo e Religião. Revista Nova Vida n.28, 3 dezembro 1905. 

sábado, 27 de agosto de 2011

Castro Alves "Espumas Flutuantes"


“Era um sonho dantesco!... o tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros...estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos...o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra.
E após fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!...

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual num sonho dantesco as sombras
[voam...!
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...”
ALVES, Castro. O Navio Negreiro, parte IV Espumas Flutuantes. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s.d.. p. 184-5.